Uma história pode ser lindamente triste

No Natal, às vezes nasce o menino Diabo

E esse menino, que dizem ter o diabo no sangue ou como padrinho, se chama Zezé, tem de 5 para 6 anos de idade, aprendeu a ler bem cedo com o Tio Edmundo e vive fazendo peraltices pela vizinhança. Um dia, ele apanhou tanto que deu dó. Mas ele não é mau, nem tem o diabinho no corpo, apenas não consegue medir as consequências dos seus atos. Inocência de criança.

Nasceu em uma família pobre, tem muitos irmãos, sendo que os mais velhos cuidam dos mais novos. Glória é a que mais cuida, briga e, às vezes, protege Zezé, enquanto ele fica por cuidar do caçula Luis.

Meu Pé de Laranja Lima é, a princípio, um livro de José Mauro de Vasconcelos, publicado em 1968. Depois, a história foi adaptada para televisão, cinema e teatro. Como sempre, primeiro li o livro e depois assisti ao filme, dirigido por Marcos Bernstein, que foi exibido pela primeira vez no Festival do Rio em 2012 e lançado em abril de 2013. Recomendo as duas produções, mas principalmente que leiam o livro.

Não há muito o que dizer sem dar spoilers, então vou me limitar a descrições breves e informações que considero importantes para o desenrolar da história.

José Mauro se baseou na própria experiência para retratar os acontecimentos na vida de Zezé durante a infância. Quando o menino, junto com a família, se muda de uma casa para outra, os filhos escolhem para si uma árvore do quintal, deixando para Zezé a menor de todas, com galhos finos, fracos e poucas folhas. Ele se entristece, mas descobre no seu pé de laranja lima (daí o título) um fiel amigo e confidente.

Cena do filme de Marcos Bernstein, com Zezé “montando” o pé de laranja lima

Zezé é solitário e vive numa realidade cruel.  A mãe trabalha muito numa fábrica, quase não para em casa; o pai desempregado sempre briga com ele e não lhe dá atenção; os vizinhos vivem dizendo que ele é o capeta em forma de menino, sem contar nas surras que leva com certa frequência.

Para fugir disso tudo, encontra refúgio nas histórias que inventa com a árvore e na amizade impensável com Manuel Valadares, mais conhecido como Portuga, um homem bravo que, no fundo, também tem sentimentos. O afeto entre os dois é recíproco e intenso, de tal modo que parecem ser da mesma família. E aí está: não precisa ser família para amar.

Entre peraltices, lágrimas e sorrisos, na vida que vive e na que sonha, junto com seu amigo do quintal ou do amigo que fez pela inocência, Zezé aprende as coisas da vida cedo demais.

É de espantar a forma como ele pensa e fala, às vezes, coisas que nem os adultos compreendem. Ele descobre o que é carinho e ternura, vivencia dor e saudade ao se deparar com a morte. Porque morrer também faz parte da vida.

Essa é uma história triste e bonita, de fato emocionante. Revela a quem lê ou assiste os sonhos, a realidade e as nuances que a vida tem. Vale a pena desvendar o que há de belo entre uma criança e seu pé de laranja lima.

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