Jovens surdos: eles vivem numa bolha?

Um dia, vi na TV do metrô uma banda chilena que fez um videoclipe para surdos. Ali estava mais uma forma de inclusão, de chamar pra mais perto quem é deficiente auditivo, pois, além de sentir a vibração da música, eles podiam também entender a letra.

Pensando naquilo, tive a curiosidade de saber como é o dia a dia de pessoas surdas, se elas vivem num mundo à parte pela falta de comunicação comum com a maioria da sociedade que é ouvinte. Nasceu aí a pauta e eu resolvi conversar com jovens surdos, mas não foi fácil, vi que a dificuldade era minha, mas foi enriquecedor. A seguir, a reportagem feita pra Na Responsa!

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Sexta-feira à noite, praça de alimentação de um shopping na zona leste de São Paulo. Mais ou menos 20 pessoas, entre jovens e adultos com diferentes níveis de surdez, se reúnem depois do trabalho ou da escola para conversar.

Eles fazem parte dos cerca de 5% da população brasileira que tem deficiência auditiva, segundo o Censo 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). São 9,7 milhões de pessoas, sendo que 1,7 milhão apresenta grande dificuldade para ouvir e 344,2 mil são surdas.

Delas, cerca de 1 milhão são crianças e jovens até 19 anos. Era com esses que eu queria conversar para saber como é o dia a dia deles e entender se há uma bolha que os mantém quase que à parte da sociedade ouvinte. Nossa hipótese é que isso rolaria pela dificuldade de comunicação.

As barreiras começam no núcleo familiar, pois cerca de 95% dos surdos são filhos de pais ouvintes, segundo a psicóloga Alessandra Giacomet.

É o caso de João, 15, que tem dentro de casa apenas a irmã que sabe um pouco de Libras, a língua brasileira de sinais, e serve de intérprete para os pais. “Se não existe comunicação em casa, imagina fora. Há interação entre surdos e ouvintes, mas ela pode não se aprofundar por falta de comunicação”, explica Marcos Galhardo, coordenador pedagógico de uma escola para surdos.

A distância de entendimento inibe a comunicação entre os diferentes até em questões simples do dia a dia.

João entendeu isso aos 13 anos, depois de comer o lanche errado por vergonha e falta de conhecimento sobre como avisar que não era aquele sanduíche que tinha pedido. Resolveu buscar ajuda de um intérprete para aprender a falar algumas coisas e conseguir expressar o básico. Hoje, está acostumado a ter que escrever e falar um pouco ou apontar no cardápio o que quer.

Entre iguais
Ainda assim, a vida social de João acontece em grupos bastante restritos e, geralmente, de jovens surdos. Morando em São Paulo, ele frequenta os encontros de surdos que rolam em diferentes locais da cidade, cada um num dia da semana.

Num deles conheceu Alanny, 22, que acredita conhecer todos os surdos da capital paulista, ainda que afirme sair pouco por estar focada nos estudos. No 1º ano do colegial, ela relata dificuldade em entender o conteúdo mesmo com ajuda de intérprete e não pretende entrar na faculdade. “É muito difícil”, responde ela, resumindo o que sente na sala de aula e na tentativa de me explicar o que vive.

Alanny tem um pouco de audição e fala, então muitas vezes se torna intérprete dos amigos que não falam. Colega de surdos e ouvintes na escola, ela prefere se comunicar só com surdos, em Libras. “Já falaram pra eu me formar em intérprete, mas não entendo bem o que o ouvinte fala. É muito difícil.”

Não deveria ser assim. A Língua Brasileira de Sinais é a 2ª língua oficial brasileira há mais de dez anos (pela lei 10.436, de 2002) e deve haver tradutor e intérprete de Libras em todos os órgãos públicos (pelo decreto nº 5.626/2005).

Gabriela Florentino, 14, que também ouve e fala um pouco, deixa a comunicação oral mais pra família. Fora de casa, ela arrisca algumas palavras na hora de comprar maquiagem, coisa que ama, mas acredita que em outros lugares não vão entendê-la.

O coordenador explica que ela usa o português sinalizado: faz sinal do batom e fala a palavra vermelho, por exemplo. Em casa, com o pai ou irmão que não sabem Libras, ela fala e ainda usa classificadores, que é fazer o formato do objeto com as mãos.

Geralmente — até pela idade —, ela sai sempre com a mãe, que é professora de química e física pra surdos, ou de algum outro parente que saiba Libras. Assim, fica a cargo deles a intermediação da comunicação com os outros.

Durante nossa entrevista, Marcos ajudava como intérprete e pediu pra ela conversar diretamente comigo. Gabriela se recusou, reafirmou que é surda e precisa de intérprete e não soube me explicar por que não quis se comunicar diretamente comigo. Marcos acredita que ela só fala em casa porque é onde se sente à vontade e segura.

Os amigos são basicamente a galera da escola. Como a maioria dos surdos nascem em famílias ouvintes, Marcos diz que “é melhor eles ficarem aqui na escola do que ficar em casa e não ter com quem conversar.” Esse é outro motivo para os encontros semanais pela cidade.

A psicóloga Alessandra — que desenvolveu uma tese de doutorado sobre como os surdos observam e interpretam o mundo — diz que quando estão entre iguais, eles têm a possibilidade de ser quem são. “Frequentemente, os surdos encontram dificuldades para estabelecer diálogos mais profundos com seus familiares, então buscam na comunidade surda um lugar para se sentirem acolhidos e pertencentes a um grupo.”

Porém, há quem construa pontes e considere enriquecedora a aproximação de mundos diferentes. É o caso do Erik, que tem amigos ouvintes, e da Ana Lua Oliveira, uma jovem de Minas Gerais que ama fazer vídeos e tem um canal no Youtube com mais de 340 mil visualizações que atinge surdos e ouvintes.

Continue lendo a reportagem e saiba mais sobre eles aqui.

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