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Os Bebês de Auschwitz


Esse é um dos tantos livros que eu gostaria de ter escrito, neste caso devido à temática que tanto me fascina como já contei em outra resenha. O final era cada vez tão mais esperado que passei a virada do natal terminando de ler. Relatos históricos e biográficos me prendem, e Os Bebês de Auschwitz, publicado em 2015 pela Globo Livros, traz um pouco dos dois ao relatar a história de três jovens, na casa dos 20 anos, que esconderam a gravidez durante a segunda guerra – e sobreviveram, mães e filhos. Como dedica a autora Wendy Holden, “[…] filhos, nascidos num mundo que não desejava que eles existissem.”

Wendy, também jornalista, escreveu o livro com base em cartas, arquivos históricos e entrevistas com as sobreviventes e diversas pessoas relacionadas à história do holocausto judeu, incluindo arquivistas de museus e moradores de cidades por onde os trens carregados de mulheres extremamente debilitadas passaram.

Você já deve ter lido ou ouvido alguma coisa sobre a morte de judeus durante a segunda guerra mundial. Eu mesma conheci e ouvi de um sobrevivente a história dele com situações pra lá de precárias. Acordar às 4 da manhã e passar cerca de duas horas em pé, no frio, sem roupas adequadas, muito menos calçados, até que todas as milhares de pessoas fossem chamadas, uma por uma, para conferirem se estavam ali.

Trabalhar por 12, 14 horas ininterruptas, todos os dias, e receber um pedaço de pão e uma sopa rala intragável por dia. Era tudo o que tinham. Sorte ser o último (ou não, caso acabasse) e conseguir pegar as raspas do fundo, que tinha um pouco mais de sustância. Agora insira nesse cenário mulheres recém-casadas, que foram obrigadas a saírem de seus lares em direção ao desconhecido, com falsas esperanças, e grávidas, momento na vida de uma mulher que requer mais cuidados e atenção.

Depois de passar por guetos e pelo campo de Auschwitz, as três mulheres foram levadas para a fábrica de munições de Freiberg, onde trabalharam de forma escrava e onde Priska Löwenbeinová deu à luz uma menina, Hana, depois de três tentativas frustradas de ter um filho. Ela se casou aos 25 anos com o escritor e jornalista Tibor, que não chegou a conhecer a filha. Priska entrou em trabalho de parto numa quinta-feira de manhã, em abril de 1945, e teve assistência da dra. Edita Mautnerová, que fez o que pôde “sem medicamentos ou qualquer equipamento esterilizado.”

[…] Priska foi levada à enfermaria numa pequena sala da fábrica e recebeu ajuda para se deitar numa tábua de madeira disposta sobre uma mesa. Toda vez que Priska se sentava para enfrentar o próximo espasmo […], deparava-se com os curiosos, mais ou menos umas 30 pessoas. Entre eles, estavam os guardas da SS, os capatazes da fábrica e o mais velho do campo. Alguns dos observadores apostavam se seria menino ou menina. ‘Diziam que se fosse menina, a guerra acabaria logo, se fosse menino, continuaria.’

Assim como os dois outros bebês, Hana nasceu com cerca de um quilo e meio, e Priska perdeu tanto sangue no processo que quase morreu. Dias depois, os nazistas tiveram que deixar o local após a cidade de Dresden, a 35Km de Freiberg, ser bombardeada. O inimigo estava próximo. Colocaram todas as mulheres em vagões de trem apertados, sem ventilação, para uma viagem de 16 dias.

Rachel Abramczyk passou pela situação que mais temia: dar à luz dentro desse vagão, um local cheio, sufocante mesmo sem teto e sujo. Ela foi a mais nova entre as três a se casar, aos 18 anos, com Monik de 21 anos. Apesar de ter se afastado do marido e dos pais, passou por todo o sofrimento da guerra junto com as irmãs. Wendy Holden relata o momento do parto da seguinte maneira:

Arquejante, Rachel agarrava o braço da irmã Bala, contorcendo-se com as contrações. As guardas foram buscar ajuda, e alguém encontrou a médica theca Edita Mautnerová, que ajudara no nascimento de Hana […] Por horas a fio, iluminada pelo fogo antiaéreo sob a chuva fria de abril, Rachel curvou-se de dor no chão do vagão. Até que, em algum momento daquela noite (ou, talvez, na manhã seguinte), ela soltou um último grito, parindo uma criaturinha vermelha de sangue. O bebê, que mal parecia humano, era mínimo. Um menino, alguém anunciou. “Mais um judeu para o Führer!”, exclamou uma das guardas, rindo.

Quatro dias depois de sair de Freiberg, o trem parou na cidade de Horní Bříza, onde o chefe da estação, o sr. Antonin Pavlicek, viu a deplorável situação daquelas mulheres e mobilizou a cidade para ajudá-las com comida, roupas e medicamentos. A comida, no entanto, muitas vezes caía nas mãos dos guardas, que tomavam-na para si.

Por incrível que pareça, a situação daquelas mulheres, bem como de todos as pessoas que foram presas, torturadas e mortas em campos de concentração, trabalhando até o fim ou em câmaras de gás, era desconhecida da população ao redor. Em meio à guerra, continuavam suas vidas normalmente e nada estranhavam. Acredito, porém, que elas não queriam conhecer. Se envolver, como alguns fizeram ao proteger judeus, era arriscado demais.

O raro e bom momento em Horní Bříza acabou, e o trem seguiu viagem para Mauthausen, o último lugar por onde os prisioneiros passaram antes de serem libertos pelos Estados Unidos. Ao sair do vagão de trem, Anka Nathanová começou a sentir contrações do segundo filho (o primeiro não resistiu), fruto de sua relação com Bernd, com quem se casou aos 23 anos.

Colocada sobre corpos moribundos, fétidos e sujos, Anka foi levada para a entrada do campo, dois quilômetros e meio acima de onde estavam. Ao chegar, as dores pioraram e o bebê começou a nascer. Transferida para uma carroça de madeira, dessas em que se transporta carvão, ela já tinha a cabeça da criança entre as pernas.

Durante todo o trajeto, eu pensava na minha mãe Ida, contou Anka. Não que ela fosse ter pena de mim, mas dizer: ‘Como você ousa ter um filho nessas circunstâncias? Num carro de boi, sem se lavar há três semanas.’ […] No ocaso e naquelas condições que Ida teria censurado, Anka finalmente deu à luz. O bebê recém-nascido escorreu de seu corpo junto com uma misturas de sangue e muco, num parto surpreendentemente rápido […]

E assim nasceu Eva.

Pra encurtar tudo, as três mães sobreviveram à guerra com os filhos, em condições mais que desumanas. Eram humanas? Ao serem libertas de Mauthausen, estavam “fracas e vazias demais para sentir felicidade”. Voltando à vida normal pós-guerra, tiveram seus corações um tanto endurecidos.

Anka diz, depois de saber da morte do marido: “Eu não tinha tempo para sofrer. Alguém me perguntou: ‘Como você está lidando com tudo isso?’, e eu respondi: ‘Não tenho tempo de pensar. Tenho que cuidar do dia a dia’, o que já era bastante, porque eu não sabia onde conseguiria o próximo centavo.”

As mães nunca se conheceram, assim como nenhum pai nunca conheceu o filho nem tornou a ver a esposa, mas os três bebês se encontraram 70 anos depois. Eles não foram os únicos a nascerem naquelas condições, mas, ao que se sabe, foram os únicos que sobreviveram.

Os Bebês de Auschwitz traz essas histórias que contrariam todas as probabilidades e que, particularmente, trazem aquela empatia pelas pessoas que viveram esse momento que conhecemos de longe. Mas de maneira cuidadosa, Wendy Holden nos aproxima dele e faz entender que o ser humano pode, naquelas condições, ser bom e vencer a morte.

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